Em 1986, quando eu era um jovem assembleiano de 23 anos, filho de pastor, recém-formado pelo Instituto Bíblico das Assembleias de Deus (Ibad), em Pindamonhangaba (SP), (sonho acalentado por muitos jovens da época), e recontratado pela CPAD, escrevi um artigo que foi publicado na coluna Opinião da edição de dezembro na extinta revista
A Seara. Estávamos comemorando o Jubileu de Diamante das Assembleias de Deus no Brasil.
Naquele texto, sem a boa qualidade literária que só é alcançada com o passar dos anos à medida que se exercita a arte e a técnica de escrever, externei minha preocupação quanto à ausência de uma reflexão sobre a existência da maior igreja pentecostal nos anos vindouros. Também apresentei minha ideia de como seriam as Assembleias de Deus em 2011, ano de seu Centenário. O título do artigo foi “As causas nobres da igreja”. Com a mesma preocupação, o jornalista e pastor Joanyr de Oliveira propusera dois anos antes em sua coluna no jornal
Mensageiro da Paz: “Vamos ‘pensar’ as Assembleias?” O saudoso colunista justificara seu apelo afirmando que, ao lado das vitórias, havia aspectos menos positivos, de natureza vária, dignos de atenção, de estudos, antes que chegássemos ao centenário [Joanyr usou esta palavra no seu texto], que podiam ser atenuados ou reparados. Segundo ele, o que os assembleianos precisavam fazer era a autocrítica. “A autocrítica faz bem. Quando se confessa os pecados cometidos, arrependido, decidido a deixar o erro, faz-se o que, em linguagem não teológica, chama-se autocrítica”, explicou.
Cinco anos depois, em 1989, dois respeitados articulistas assembleianos, como que atendendo ao chamamento de Joanyr de Oliveira, ousaram analisar o futuro das Assembleias de Deus por meio de seus belos escritos. Foram eles, os pastores Estevam Ângelo de Souza e Geremias do Couto. O primeiro escreveu “A Assembleia de Deus daqui a 50 anos”, e o segundo, “Para onde vai a igreja”. Digno de nota também é que, nessa direção, muito antes nas décadas de 50 e 60, pastor Alcebiades Pereira Vasconcelos, erudito e um dos líderes da denominação, fazia reflexão sobre as Assembleias de Deus no Brasil em artigos publicados nos periódicos da CPAD.
Mas, no meu avanço de 25 anos na história, no que diz respeito à Assembleia de Deus em si mesma (como ela seria e estaria no ano de seu Centenário), somente antevi, com primaríssima obviandade, reconheço hoje, como seria um pouco a composição etária dos seus membros em 2011. Escrevi: crianças de 5 anos em 1986 seriam os crentes com 30 anos; jovens de 25 anos seriam as pessoas de 50 anos; um senhor ou uma senhora com 50 anos seriam os idosos assembleianos de 75 anos. (Eu mesmo, um jovem de ontem, estou agora perto da meia-idade. Bem mais simpático, é claro.)
Na verdade, com vistas a justificar um redescobrimento nacional do que eu chamei de “causas nobres”, preocupei-me mais em antever como seria a sociedade brasileira de 2011 na qual os crentes assembleianos estariam inseridos.
Minha previsão era que a sociedade brasileira seria, 25 anos mais tarde, “paradoxalmente amoral, socializada, politizada, automatizada e religiosamente sincretista”. Acho que não errei. Creio que meu leitor concorda.
![]()
Uma descrição da sociedade em que estamos vivendo em 2011, foi feita no final de 2010, por meio do artigo produzido pelo importante portal de notícias iG, com base no que disseram especialistas entrevistados. Esses estudiosos descreveram a primeira década do século 21, os anos “00”, como a era dos orgânicos, dos divorciados e da “geração flex”. Para eles: o Brasil verde amadureceu (curiosamente, a terceira colocada na última eleição presidencial, é do Partido Verde e assembleiana) – a palavra de ordem do momento é “sustentabilidade”; há “personais” para tudo – com que roupa, quantos abdominais fazer ou com quem sair à noite –; os casais se separam como quem muda de roupa; estão aparecendo novos comportamentos sexuais marcados pela bissexualidade em que meninos e meninas começam a vida sexual com garotos e garotas do mesmo sexo, vivendo, assim, a chamada “geração flex”; e a saúde da população brasileira, além do aumento das doenças graves, está sendo marcada pelo crescimento da obesidade e do sedentarismo.
Também, todos sabem que, de 1986 para cá, vivemos o aprofundamento da revolução digital com a difusão da computação pessoal e a invenção da Internet. E, já entramos em outra revolução, a genômica, com a descoberta da estrutura de dupla hélice do DNA, o mapeamento do genoma e a criação do primeiro microrganismo sintético. Avançam o desenvolvimento de softwares vivos e o uso da holografia em sistemas de telepresença por meio dos quais uma pessoa poderá comparecer a uma reunião de negócios, por exemplo, sem que esteja lá fisicamente.
No campo religioso, a situação não é outra senão a do sincretismo – a fusão (e confusão também) de concepções religiosas diferentes ou a influência exercida por uma religião nas práticas de outra. Entretanto, a taxa no país dos que crêem em Deus é a terceira mais alta do mundo, segundo pesquisa recente. Oitenta e quatro por cento da população brasileira declaram acreditar em Deus ou num ser supremo.
Então, para que as Assembléias Deus atravessassem os 25 anos seguintes até ao seu Centenário em 2011 (caso a volta de Cristo não ocorresse até aqui, condicionei no artigo), apregoei que houvesse o redescobrimento e a prática das “causas nobres” da igreja.
Chamei de “causas nobres” aquelas atividades primárias e fundamentais da Igreja de Cristo depreendidas das palavras dEle registradas em Mateus 28.19 e 20 e em Marcos 16.15-18, e que constituem a natureza da igreja, ou seja, a sua razão de existir no mundo. São elas: o ensino da Palavra de Deus, a oração, a evangelização e a obra missionária.
Adverti que muitos dos assembleianos na época, em vez de praticarem as “causas nobres”, estavam envolvidos excessivamente com causas tidas como doutrinárias, administrativas, políticas, sociais e financeiras.
No último parágrafo, parece que sentenciei: “A definição e clareza de objetivos, a manifestação do poder de Deus, vidas santificadas e submissas a Deus, a seriedade e abnegação ao serviço cristão, o crescimento quantitativo e qualitativo da igreja e a fase da existência atual e futura do povo de Deus dependem da volta às causas nobres. É preciso plantar hoje para colher amanhã! ‘Ou quererão que colhamos onde não foi plantado?’ ”
Muitos dos assembleianos daquela geração de mais de duas décadas passadas são agora os obreiros, os pastores, os líderes das Assembleias de Deus de 2011. Respeitosamente, a estes assembleianos-chave, [agora, creio eu, recebendo um pouquinho mais de atenção do que quando era um novato], novamente eu apregôo que as “causas nobres” da igreja não sejam esquecidas ou obscurecidas por outras causas.
Afirmei em 1986, e reafirmo hoje: “Viver as causas nobres é viver um avivamento espiritual”. Entendia, e ainda entendo, que somente um despertamento espiritual, onde a autocrítica do tipo a que se referiu Joanyr de Oliveira tenha lugar, pode levar-nos a reviver plenamente as “causas nobres” da Igreja.